Economia

Pressão dos juros altos impulsiona recuperações extrajudiciais no Brasil

Com Selic em 14,25%, pedidos de recuperação extrajudicial saltam de 16 para 84 em 2025, com destaque para a Raízen (R$ 65 bi). Entenda o fenômeno.

Por GrudanaWeb 06 de Julho de 2026, 11:30 📖 3 min de leitura
Pressão dos juros altos impulsiona recuperações extrajudiciais no Brasil

O pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, com dívidas de R$ 65,1 bilhões, movimentou o mercado em 2026, mas a gigante do setor de açúcar e etanol não é um caso isolado. Segundo dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre), o número de pedidos saltou de 16 em 2021 para 84 no ano passado, envolvendo setores como indústria, mineração, varejo, agronegócio e logística. Só em 2026, até agora, 33 empresas seguiram o mesmo caminho.

O aumento reflete o peso da taxa básica de juros, atualmente em 14,25% ao ano, sobre as empresas — especialmente aquelas que contraíram empréstimos durante a pandemia, quando a Selic chegou ao mínimo histórico de 2%. Mas o movimento também se deve a uma reforma legal de 2020, que tornou o mecanismo mais flexível.

Reforma de 2020 estimula renegociação precoce

A mudança na lei permitiu que empresas excluíssem algumas classes de credores e incentivou o início mais cedo das negociações, antes que um processo judicial se torne inevitável. “Isso gerou uma mudança cultural”, afirmou Juliana Biolchi, diretora do Obre. “As reestruturações extrajudiciais são cada vez mais associadas a crises financeiras menos agudas”, completou ela.

Luiz Fabiano Saragiotto, sócio da Journey Capital, explicou que as recuperações judiciais são complexas e custosas, porque “envolvem todos os credores, afetando a reputação da companhia e o acesso às linhas de crédito”. Segundo ele, “no momento em que um pedido de recuperação judicial é deferido, a empresa ganha esse carimbo maldito”.

Como funciona a recuperação extrajudicial?

Diferente da judicial, a reestruturação extrajudicial permite que a empresa negocie diretamente com um grupo selecionado de credores. Uma vez aprovado por maioria simples, o plano de reestruturação se torna obrigatório para todos os credores das classes afetadas, evitando que minorias bloqueiem o acordo.

O mecanismo ganhou destaque em 2024, quando a Casas Bahia obteve aprovação para uma reestruturação extrajudicial de R$ 4,1 bilhões — sem afetar fornecedores, funcionários ou clientes, segundo a empresa. Depois vieram Tok&Stok (também em 2024) e o GPA, que em março de 2026 pediu aprovação para reorganizar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas.

O endividamento somado das empresas que pediram recuperação extrajudicial em 2026 ultrapassou R$ 109 bilhões, contra R$ 41,5 bilhões em 2024, com forte influência do acordo da Raízen.

Para especialistas, o número deve continuar subindo. A Oncoclínicas, maior empresa de tratamento oncológico da América Latina, está entre as que consideram essa possibilidade, segundo reportagens da mídia local e uma fonte próxima às discussões. A empresa não comentou.

De acordo com Caio Viggiano, managing director da área de renda fixa do Itaú BBA, “os investidores estão muito mais preocupados com o risco de crédito do que estavam no passado”, citando conflitos globais, altas taxas de juros e a onda de reestruturações corporativas.

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