As bandeirinhas começam no topo das janelas e descem até as calçadas. Verde e amarelo do Brasil. Vermelho e verde de Portugal. Amarelo do Equador. Na Ferry Street, artéria principal do Ironbound, em Newark, Nova Jersey, é difícil encontrar um estabelecimento sem ao menos uma bandeira durante a Copa do Mundo.
A música que sai das caixas de som na calçada muda de porta em porta – cumbia, funk, reggaeton – e as camisas que passam pela rua contam a história de um torneio disputado ao mesmo tempo em três países com 48 seleções. Para os imigrantes que vivem ali, a Copa trouxe um respiro em meio às tensões recentes.
Bairro alvo de fiscalização desde 2025
Desde 2025, o Ironbound está oficialmente na lista do governo Trump como alvo prioritário de fiscalização de imigração. O bairro, que recebe imigrantes há quase dois séculos, viu a rotina mudar com operações de agentes federais. Em junho de 2025, manifestantes chegaram a entrar em confronto com agentes em frente a um centro de detenção na região.
Apesar do cerco, a Copa trouxe movimento extra para os comércios locais. "Em todas as Copas que eu estou aqui, em todos esses 38 anos, essa superou todas", disse José Moreira, dono de cinco restaurantes na região, enquanto preparava o salão para receber o fluxo de torcedores. "Para o meu negócio, está maravilhoso."
Uma história de imigração e resistência
O nome Ironbound vem das ferrovias que cercaram o bairro no século 19. Desde os anos 1830, o local recebe imigrantes: alemães, poloneses, italianos, portugueses, brasileiros, cabo-verdianos e equatorianos. Cada geração chegou sem muito e foi refazendo o bairro à sua imagem. Hoje, dois em cada três moradores nasceram fora dos Estados Unidos.
Em janeiro de 1995, o New York Times publicou uma reportagem com o título "Em Newark, imigração sem medo", descrevendo como imigrantes que antes fugiam da fiscalização se tornaram proprietários dos comércios locais. "Se você entrar em cada negócio, um por um, quase todos começaram ilegalmente", disse ao jornal Jack Santos, dono de um restaurante no Ironbound, que havia chegado ao país sem documentação em 1966.
Três décadas depois, o ciclo recomeça. Os brasileiros, impulsionados pela crise de hiperinflação no Brasil, lideraram a nova onda. Em seguida, vieram cabo-verdianos e equatorianos, que hoje representam os grupos de crescimento mais rápido. A Copa, por enquanto, oferece um alívio temporário para uma comunidade acostumada a lutar.
