A Polícia Civil do Rio Grande do Sul identificou sete mortes de pacientes com câncer que receberam medicamentos falsificados durante o tratamento. A informação foi divulgada nesta segunda-feira (29) durante a Operação Placebo, que investiga um esquema de fraude em concorrências e falsificação de remédios comprados com recursos públicos.
Segundo a polícia, já foram identificadas 39 vítimas do esquema. Os medicamentos eram adquiridos por meio de ações judiciais e custeados pelo Estado.
Como o esquema foi descoberto
A investigação começou quando uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel, na Fronteira Oeste do RS, desconfiou da embalagem do medicamento Enhertu, usado no tratamento de câncer de mama. De acordo com a Polícia Civil, o remédio apresentava inconsistências e até erros de grafia na embalagem.
Uma única compra do medicamento chegava a custar R$ 800 mil — valor bloqueado pela Justiça para garantir o tratamento dos pacientes.
"As evidências reunidas apontam para uma estrutura organizada que, em tese, teria transformado a judicialização da saúde em um mecanismo de obtenção de lucro ilícito. A suspeita de comercialização de medicamentos adulterados ou falsificados torna os fatos ainda mais graves, pois ultrapassa a questão patrimonial e alcança diretamente a saúde e a vida dos pacientes", afirmou o delegado Daniel Severo, responsável pela investigação.
Empresário preso e médico investigado
Nesta segunda-feira, foram cumpridos 57 mandados de busca e apreensão. O empresário Lisandro Henriques Hermes, apontado como líder do grupo, foi preso. A Justiça também bloqueou cerca de R$ 2,5 milhões em bens dos investigados.
A polícia aponta a participação do oncologista Fernando Borges da Silva, de Santa Maria, que seria responsável pelos laudos médicos utilizados nas ações judiciais. Segundo a investigação, o médico fazia a captação dos pacientes e os encaminhava para advogados que faziam parte do esquema.
"Eles têm claramente ali um médico que é o que capta os clientes. Duas pacientes nos confirmaram que é ele quem indica. Aliás, ele tem cartões desses advogados à disposição para entregar para os pacientes que não conseguiram o medicamento nas farmácias do Estado", explicou o delegado.
Um médico e três advogados tiveram o exercício profissional proibido pela Justiça. O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) informou que instaurará uma sindicância para apurar a situação.
O prefeito de São Gabriel, Lucas Menezes, confirmou que o médico investigado seria afastado.
A Polícia Civil continua as investigações para identificar outras possíveis vítimas do esquema.
